Perdi meus documentos, meus cheques o que devo fazer?
Em geral, recomenda-se a quem perca documentos pessoais que registre um boletim de ocorrência na Polícia Civil e informe os serviços de proteção ao crédito, como Serasa e SPC.
O SPC Brasil tem um serviço gratuito de utilidade pública para alerta, que informa sobre documentos e cheques roubados ou extraviados.
Ao preencher o formulário nosso departamento responsável manda automaticamente, o alerta para o sistema quando os números desses documentos forem consultados no SPC em todo Brasil.
Ao mesmo tempo em que você evita o uso indevido do seu nome e de seus documentos, estará ajudando a coibição de criminosos e contraventores que causam prejuízo a você, ao comércio e à sociedade.
Mestre de obra passou 21 dias na prisão por causa de documento roubado.
Gabriel Afonso de Araújo de 38 anos, mestre de obras há cerca de 20 anos, casado e com duas filhas passou 21 dias preso neste ano por roubos que diz não ter cometido.
O suspeito autor dos crimes é um homem que usa, com algumas alterações, um documento de identidade de Araújo furtado em 1999. Entre as acusações, há pelo menos três assaltos a banco.
Gabriel contou como foi ser preso duas vezes por causa de um documento furtado, confira o relato:
Primeira prisão
“Mexo com construção desde que me entendo por gente. Tenho 38 anos, comecei a trabalhar com 17 anos e há 20 anos sou mestre de obras.
Fui roubado numa obra, em abril de 1999. A gente trocava de roupa no almoxarifado e deixava tudo dependurado. Três funcionários deixaram as carteiras no bolso e foram roubados. Tinha habilitação e identidade . Nem fiz a ocorrência.
Em 2009, estava indo para o Alphaville (condomínio em Goiânia), umas 8h. Um guarda me abordou e pediu a habilitação da moto.
Os guardas só apareceram de novo após uns 40 minutos. De repente apareceram cinco viaturas para me prender, atravessando canteiros, coisa de cinema.
Começaram a me agredir. Chorei e disse: 'moço, nunca fiz nada'. E eles dando tapas, me empurrando numa tela de parque. Passantes batiam continência para os soldados: 'Parabéns, prendeu mais um bandido'.
Levaram-me ao 8º DP (Distrito Policial), perto do (estádio) Serra Dourada. Quando puxaram os processos, saiu a foto do cara (que usa o documento dele). Começaram a maneirar comigo.
Jogaram-me na viatura, fui ao IML (Instituto Médico Legal) fazer exame de corpo de delito, fiz exame de digitais. Às 16h30 me liberaram: pelas digitais perceberam que eu não era o cara”.
Segunda prisão
Araújo conta que foi buscar um projeto para fazer orçamento até que ele foi parado às 9h30 numa barreira policial. Puxaram sua ficha no computador e lá estava o mandado de prisão. O colocaram no carro e algemaram ele.
Gabriel imaginou que seria igual da outra vez, porque nunca fez maldade para ninguém.
Foi ao IML, à Polícia Civil. Tiraram duas fotos sua, mas não fizeram a verificação das digitais como da outra vez. Do IML foi para a Deic (Delegacia de Investigações Criminais). O policial chegou com o mandado de prisão dele, entregou ao delegado e já o desceram para triagem.
De Goiás, Gabriel foi parar em Minas Gerais, a mais de 900 Km de sua casa.
“Meu tênis ficou na triagem. Agentes da triagem cortaram minha calça como bermuda, porque não pode entrar de calça na cela. É lei do presídio. Fui descalço. Foi o 'trem' mais triste da minha vida. Dormi num 'corró' (uma celinha que divide os presos para cada ala que irão). Todos que chegam vão para essa celinha. São duas alas no presídio, A e B. Cada ala tem dez celas e uma cela especial para quem não convive com outros presos.
Cheguei lá umas 15h, havia umas 30 pessoas. À noite já eram 60. Passei a noite em pé, num espaço de 9 m². Esse cômodo tinha um banheiro, um tanquezinho que virava a torneira onde o povo tomava banho. No dia seguinte fui para a ala B, numa cela de 16 m², com 30 a 33 pessoas. Tinha seis 'jegas' (jega é cama). Havia colchonetes, um banheiro para banho, um para as necessidades e uma pia. Dormia um em cada cama, e o resto no chão. Era feito um rodízio, e os mais velhos iam subindo (para as camas). Passei os 21 dias no chão, em um colchonete fininho” contou o mestre de obras.
Araújo relata que tinha horário para banho, horário para levantar. “Não sabia as horas, fazia só uma base. Às 6h tinha que levantar o pessoal que estava no chão, lavar a cela. O café era às 8h. Misturavam leite com café 'aguado' e pão sem manteiga. Eram duas horas de banho de sol, sem horário específico. Ficava todo mundo lá misturado. O almoço era de 11h às 13h. Não tinha hora certa. Era arroz, feijão e dois pedacinhos de carne. Chegava quente, mas teve marmita azeda também. A janta era a mesma coisa: um lixo, nem cachorro come.
Fiquei mais isolado mesmo. Ficava com medo. Medo de não ver mais minha família. De sair morto de lá. Só Deus e quem vive isso sabe o que é uma cadeia”. (Ele diz que não chegaram a ameaçá-lo e que não presenciou nenhuma situação de tensão).
Após o advogado de Araújo conseguir provar diferenças entre ele e o homem procurado, como o nome da mãe na identidade, profissão diferente e fotografia no sistema de buscas, a prisão do mestre de obras foi revogada.
Gabriel disse que vai entrar com um pedido de indenização por danos morais contra o Estado de Minas e o de Goiás. “Só com advogado já gastei R$ 25 mil. Foram R$ 8 mil antes, mais R$ 25 mil agora para provar minha inocência, fora gastos de Sedex, telefone, gasolina. E os prejuízos da minha obra, que tive que parar. São três obras que ficaram paradas.
Parece que estou aprendendo a viver de novo. Aquela cela não sai da minha cabeça, a angústia que vivi lá dentro, só tristeza. Estou tomando remédio para dormir, porque não dormia lá.
Peguei infecção de garganta desde o dia em que entrei, não sarou. Gripe era uma em cima da outra, imunidade baixa. O povo quase morria lá precisando de médico e não atendiam”.
Este relato é real e pode, infelizmente, acontecer com qualquer um. Por isso, caso você tenha seus documentos roubados ou perdidos, não hesite em acionar o serviço gratuito do SPC e também um registro na polícia.
Matéria sobre o documento roubado retirada da BBC Brasil
