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Seus dados e você são vigiados na internet o tempo todo

2 de julho de 2018

No comércio, no sistema bancário, nas compras on-line, nas redes sociais e nos aplicativos, milhões de dados de usuários são registrados e compartilhados todos os dias.

Nem sempre essas transações são transparentes. Ocorrem sem que suspeitem desse mercado paralelo que põe em xeque o direito à privacidade e expõe a vulnerabilidade em que vivemos nesse mundo cada vez mais digital. Até um despretensioso movimento de mouse pode revelar quem uma pessoa é.

Ao preencher um cadastro num loja, ao dar o número do CPF na farmácia, ao postar uma foto na rede, ao contratar um financiamento ou mesmo ao utilizar mecanismos de transporte público ou privado, as pessoas muitas vezes não se dão conta que essas informações, algumas confiadas a apenas um fornecedor, são trocadas e vendidas sem consentimento.

Empresas interessadas em traçar um perfil de seu público-alvo rastreiam informações financeiras, hábitos de consumo, referências políticas e religiosas, pesquisas feitas na internet, a orientação sexual de seus clientes e são capazes de observar até como o usuário utiliza a web.

Após o escândalo de vazamento de dados de 87milhões de pessoas para a Cambridge Analytica, contratada para ajudar na campanha de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, o Facebook, por exemplo, admitiu ao Senado americano que monitora até o movimento do mouse para identificar o comportamento do usuário dentro da sua plataforma.

A empresa ainda permitiu que pelo menos 60 fabricantes de smartphones, como Apple, Samsung e Blackberry, tivessem acesso aos dados pessoais dos usuários.

Na última sexta-feira, outro escândalo envolvendo a rede veio à tona. Dados de 120 milhões de pessoas foram expostos nessa mídia social. O teste de princesas, do site Nametest.com, mantinha no código-fonte detalhes de todos aqueles que participaram dessa brincadeira.

“Existe uma verdadeira ‘economia de dados’. Podemos dizer que esse negócio é o novo ‘petróleo’ do mercado. Não é utilizado apenas, no caso do Facebook, para montar o perfil do eleitor e direcionar a essa pessoa uma propaganda política ou para oferecer um hotel na cidade onde você comprou a passagem. São informações aplicadas das mais diversas formas pelas empresas e até pelo poder público”, explica a jornalista, Bia Barbosa, fundadora e coordenadora do Intervozes, organização da sociedade civil que atua na área de comunicação e de direitos na internet.

As consequências dessa espionagem vão além dos riscos de vazamento de dados. Para os especialistas, elas podem servir como ferramentas de manipulação e ainda provocar discriminação do consumidor.

Dependendo de como o indivíduo é visto, ele pode, por exemplo, ter um crédito negado, ser recusado por um plano de saúde ou por um seguro de vida e ainda ser alvo fácil de agentes que querem influenciar as eleições.

“Nossa vida é toda digital. Tudo que postamos nas redes sociais, Que falamos com as pessoas nos aplicativos é registrado. Estamos amparados nesses sistemas, que têm grande capacidade de coleta. Estamos sujeitos à vigilância, algo que pode prejudicar a democracia. Precisamos deixar as pessoas se comunicarem, se expressarem pela internet, sem que essas informações sejam usadas contra elas”, opina a professora adjunta da UnBe diretora do Centro de Direito, Internet e Sociedade do Instituto Brasileiro de Direito Público (IDP), Laura Schertel Mendes, ao ressaltar que estamos desprotegidos.

Fonte: Jornal A Gazeta - 1º de Julho de 2018, página 35.